sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Para Cada Verdade as suas Consequências

por Miguel Hernâni Guimarães


A noite é escura e cheia de terrores, pensa Mário. Depois sorri, um sorriso triste, lembrando-se do livro em que lera essa frase, e dos outros, de todos os seus velhos e amados livros, estantes deles, perdidos agora para sempre no incêndio de Lisboa. Este continua a lavrar, algures para norte, enchendo o céu noturno de fumo acre que de vez em quando é empurrado pelo vento para o nível das ruas, dificultando a respiração, mas já está demasiado distante para que se continue a ouvir o crepitar das chamas. Agora o que crepita são as armas automáticas que continuam a discutir à sua esquerda e à sua direita, nos labirintos arruinados de Alfama e do Bairro Alto, enquanto as tropas da União e a guerrilha da Frente Latina Revolucionária trocam derradeiros argumentos a três e quatro vezes a velocidade do som, sob a forma de chumbo revestido de aço. De vez em quando, uma violenta explosão sacode o solo sob os seus pés, como um relâmpago de pedra, e passados alguns segundos chega-lhe aos ouvidos um trovejar longínquo. Embora continue a passar por ali um drone ou outro, os bombardeamentos da NATO concentram-se agora mais a noroeste, para lá de Benfica. Contudo, se a sua eficácia for comparável à dos que destruíram os velhos bairros de Lisboa, a guerrilha pouco terá a temer. Bastar-lhe-á recolher-se, calar as armas, fundir-se com a população de onde brotou, esperar que o vendaval passe e rezar, se para aí estiver inclinada, por chegar viva ao dealbar dos dias calmos, e depois reatar a luta por entre os escombros.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Consumidor Está Muito Desprotegido

Por João Ventura


N. E.: Por pedido do autor, este conto obedece à antiga ortografia.

Quando despertou, estava sem orelhas. Ficou furioso. Acordou a mulher, que dormia a seu lado, e queixou-se:
— Tu já viste isto? Estes tipos da "Limpeza Enquanto Dorme, SARL" são uns aldrabões! O que é que dizia o prospecto? Levamos as peças depois de adormecer e trazemo-las de volta antes de acordar. Tretas! E agora sem orelhas, como é que eu vou trabalhar?
A mulher tentou deitar água na fervura.
— Olha, era pior se fosse o nariz. As orelhas ainda se disfarçam, está frio, pões o gorro de lã e um cachecol.
Mas ele continuava furioso.
— E já é a segunda que fazem! Lembras-te quando faltou um dedo? E logo o do anel! E só o trouxeram dois dias depois, e com a unha por limpar! Na volta do trabalho passo pela agência e peço o Livro de Reclamações. Vão ter a Defesa do Consumidor à perna!
A mulher encolheu os ombros. Até achava que ele ficava mais bonito sem orelhas mas, com ele tão zangado, não se atreveu a dizer nada.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Uma Notícia Geométrica

Por João Ventura


N.A.: Modesta homenagem a Edwin Abbott, autor de Flatland.
N. E.: Por pedido do autor, este conto obedece à antiga ortografia.

Era um quadrado perfeito (os seus lados mediam cada um 7 centímetros, com um erro inferior a 1 micrómetro). E, sendo extremamente vaidoso, estava sempre a gabar-se. O que irritava muitas outras figuras geométricas.
Um dia, à saída do livro de geometria, um gang de triângulos escalenos apanhou-o e deu-lhe um ensaio de pancada. Ficou com um lado partido e um vértice muito maltratado.
Levado ao hospital geométrico, teve azar com o médico que o atendeu na urgência, um octógono que era especialista em áreas e não em segmentos de recta, e que ao reparar o seu lado partido deixou os dois fragmentos desalinhados.
E foi assim que o quadrado perfeito passou a ser um pentágono. E ainda por cima irregular!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quem Quer Ser Super-Herói?

por Jorge Candeias


— Mas o que me irrita mesmo, pá — disse-me ele enquanto ia arrancando, mastigando e engolindo uma página após outra do livro de Kafka que eu lhe oferecera — é que podia perfeitamente ter sido picado por um bicho radioativo com alguma pinta. Com estilo, percebes? Uma aranha, um escorpião, uma vespa… pá, até um gafanhoto era melhor que a porcaria do peixinho de prata que me picou. — E mais uma página desapareceu perante os meus olhos horrorizados, e mais outra logo a seguir. Tentei consolar-me dizendo a mim próprio que o livro era curtinho e fora uma pechincha, uma edição de bolso não muito antiga comprada ali perto na liquidação de uma livraria que não resistira ao governo da troica e à internet. Sem grande sucesso.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Terra Brasilis

por Gerson Lodi-Ribeiro


Mammuthus primigenius — o paleontólogo sentencia na praça-d’armas às escuras.
— Em português alto e claro, Professor — o vulto do comandante da nossa Força-Tarefa grunhe, jovial, da primeira fila de cadeiras alinhadas em frente ao telão. — Por favor.
— Mamutes, Excelência — o cientista civil esclarece, fleugmático.
Cá entre nós, se alguém há dois anos me dissesse que eu e meus homens iríamos efetuar um desembarque anfíbio no delta do Mississipi, antigo território dos Estados Unidos da América, em meio a mamutes, manadas de bisões e Deus sabe lá o que mais, eu providenciaria a internação imediata do sujeito.

domingo, 30 de setembro de 2012

Uma História Verdadeira, Segundo Quem a Contou

por Jorge Candeias


Se tu, leitor, me emprestares uns minutos da tua vida, eu conto-te uma história. É uma troca justa, parece-me, até porque quem ma contou jura a pés juntos que a história é verdadeira. Não que se tenha passado com ele, nota bem. Ele próprio a ouviu contar a alguém que um belo dia encontrou nunca me chegou a revelar onde. Mas diz que o relato que me fez é precisamente o que esse conhecido lhe fez a ele, palavra por palavra, tintim por tintim, com os palavrõezinhos todos tal e qual. Duvidas? Eu também duvidaria se não o conhecesse, mas conheço. Já fui testemunha de extraordinárias proezas de memória por parte deste meu amigo. A princípio ficava boquiaberto, não acreditava, achava que tinha de haver ali truque, uma qualquer consulta a fontes que o meu olhar atento não vislumbrava, um qualquer ventriloquismo. Depois vim a saber que não. É um tipo estranho, por vários motivos de que adiante talvez te venha a falar, mas o principal é a memória. Memória eidética, parece que é assim que se chama aquilo de que sofre. Sim, “sofre” é a palavra certa. Imagina-te a nunca esquecer nada, nem a mais insignificante ninharia, nem a cena mais traumática, e talvez compreendas até que ponto ele pode parecer desaparafusado ao primeiro contacto. Na verdade faz um pouco de propósito. Exagera. Diz que assim afasta logo aqueles que não prestam. Que evita ter depois de recordá-los muitas vezes.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cientista


por Fernando Soromenho

NA: O autor agradece a Jorge Candeias as valiosas sugestões de revisão.

O dia em que o mundo acabou começou para o cientista como outro qualquer. No seu laboratório, imerso nas profundezas do oceano Atlântico, o cientista testava a criação daquelas terríveis singularidades a que os comuns chamavam buracos negros. A cada dia que passava a sua frustração aumentava; sabia ser possível que algures, na Europa, nos Estados Unidos ou na China ou, pior ainda, nas Arábias, algum outro cientista, daqueles com grupos de trabalho imensos, constituídos por estagiários mal pagos mas brilhantes, conseguiria antes dele criar, manter e manipular uma das singularidades que procurava.