por G. B. Nunes
Quando o Sol
roça enfim a linha ténue do horizonte, a areia começa a descansar. Para trás vão
ficando longas horas de esmagamento sob o calor tórrido de corpos, de
remeximento pelo deambular frenético de pés, de andares, de corridas, de jogos
e passeios. Ainda se vê gente na praia, os últimos retardatários, mas a babuja
está agora entregue a gaivotas e a pulgas-de-areia que aproveitam a maré baixa
para sair das tocas. Um pouco mais acima a areia cobre-se com uma faixa
entrecortada de algas secas, trazidas pelas marés-vivas da véspera e ainda não
apanhadas por ninguém. O mar continua revolto, desfazendo-se em espuma que vai
escurecendo com o recuo da luz, mas para a areia o estrondo solitário da
rebentação é uma mudança bem-vinda do coro de gritos e gargalhadas de horas
antes. Estes ainda se ouvem, mas mais rarefeitos, em ecos longínquos que ricocheteiam
na falésia. Vêm dos restaurantes que a debruam e derramam luzes frias sobre
círculos cada vez mais isolados de praia.