segunda-feira, 13 de maio de 2013

A Fome das Ratazanas

por Jorge Candeias



NA: Este conto foi inspirado pelo conto A Crise das Ratazanas, de Miguel Hernâni Guimarães.

O ministro abriu a boca e dela saíram ratazanas. Eram cinco, muito pretas, escanzeladas, pelo e osso atrás de uns olhinhos a brilhar de calculismo. Distribuíram-se pela mesa, em formação quase militar, cobrindo todos os ângulos, e depois imobilizaram-se. Os focinhos rosados é que não paravam quietos, esforçando-se por captar só as ratazanas saberiam dizer o quê.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Pogrom

por José Eduardo Lopes





Na digna República dos Bananas, a concórdia era geral nos estratos superiores da sociedade. Os Bananas elegiam os seus representantes para o Senado, mais um chefe de Estado que se incumbia das missões mais solenes e decorativas. Havia deles para fingir que trabalhavam e que eram parte do aparelho produtivo da nação, e havia outros que dispensavam esse teatro supérfluo e existiam apenas para encher os seus ventres esbranquiçados e mercadejar cargos e influências. O único senão para a excelência da República dos Bananas, é que eles não estavam sozinhos. Os Bananas exploravam despudoradamente o trabalho servil do Cocos; eram estes quem verdadeiramente produzia a riqueza do país, quem lavrava os campos e mourejava nas minas e fábricas.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A Crise das Ratazanas

por Miguel Hernâni Guimarães





O ministro abriu a boca e dela saíram ratazanas. Eram cinco, muito pretas, lustrosas, gordas como penicos. O ministro, esse, ainda estrebuchou um bocado, atrapalhando-se com a gravata, mas acabou por cair redondo no chão.
A comoção foi geral. A oposição exigiu eleições antecipadas. O país não podia estar condenado a um governo cujos ministros se dissolviam em ratazanas, alegou.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Mau Feitio

por José Eduardo Lopes




Norb Bron (os subalternos tinham sempre estes nomes parvos), funcionário de Manutenção, foi chamado ao terraço do prédio.
— Eis o que precisamos de ti — explicou-lhe um dos trinta e quatro supervisores que tinha acima de si — o vento despregou parcialmente os painéis de propaganda e tens de os pregar de novo antes que se soltem por completo. Dirige-te à Secção 21 no sexagésimo oitavo piso e requisita um martelo inteligente para teres êxito na incumbência.

terça-feira, 16 de abril de 2013

À Porta de Tua Casa

por Jorge Candeias




À porta de tua casa há uma corda que sobe até ao infinito. Viveste com ela toda a vida. Sempre curioso, sempre intrigado, mas nunca o suficiente. Até ao dia em que é o suficiente, o dia em que decides subi-la para ver onde vai dar, o dia em que resolves que se não o fizeres já acabarás por envelhecer demasiado para tentares a ascensão. E deitas mãos à obra. E sobes. E sobes. E sobes. E continuas a subir até que, ao fim de muito tempo, se te acaba a corda, inesperadamente.
É esse o preciso momento em que cais. Lá em baixo, está o infinito à tua espera. À porta de tua casa.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Para Cada Verdade as suas Consequências

por Miguel Hernâni Guimarães


A noite é escura e cheia de terrores, pensa Mário. Depois sorri, um sorriso triste, lembrando-se do livro em que lera essa frase, e dos outros, de todos os seus velhos e amados livros, estantes deles, perdidos agora para sempre no incêndio de Lisboa. Este continua a lavrar, algures para norte, enchendo o céu noturno de fumo acre que de vez em quando é empurrado pelo vento para o nível das ruas, dificultando a respiração, mas já está demasiado distante para que se continue a ouvir o crepitar das chamas. Agora o que crepita são as armas automáticas que continuam a discutir à sua esquerda e à sua direita, nos labirintos arruinados de Alfama e do Bairro Alto, enquanto as tropas da União e a guerrilha da Frente Latina Revolucionária trocam derradeiros argumentos a três e quatro vezes a velocidade do som, sob a forma de chumbo revestido de aço. De vez em quando, uma violenta explosão sacode o solo sob os seus pés, como um relâmpago de pedra, e passados alguns segundos chega-lhe aos ouvidos um trovejar longínquo. Embora continue a passar por ali um drone ou outro, os bombardeamentos da NATO concentram-se agora mais a noroeste, para lá de Benfica. Contudo, se a sua eficácia for comparável à dos que destruíram os velhos bairros de Lisboa, a guerrilha pouco terá a temer. Bastar-lhe-á recolher-se, calar as armas, fundir-se com a população de onde brotou, esperar que o vendaval passe e rezar, se para aí estiver inclinada, por chegar viva ao dealbar dos dias calmos, e depois reatar a luta por entre os escombros.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Consumidor Está Muito Desprotegido

Por João Ventura


N. E.: Por pedido do autor, este conto obedece à antiga ortografia.

Quando despertou, estava sem orelhas. Ficou furioso. Acordou a mulher, que dormia a seu lado, e queixou-se:
— Tu já viste isto? Estes tipos da "Limpeza Enquanto Dorme, SARL" são uns aldrabões! O que é que dizia o prospecto? Levamos as peças depois de adormecer e trazemo-las de volta antes de acordar. Tretas! E agora sem orelhas, como é que eu vou trabalhar?
A mulher tentou deitar água na fervura.
— Olha, era pior se fosse o nariz. As orelhas ainda se disfarçam, está frio, pões o gorro de lã e um cachecol.
Mas ele continuava furioso.
— E já é a segunda que fazem! Lembras-te quando faltou um dedo? E logo o do anel! E só o trouxeram dois dias depois, e com a unha por limpar! Na volta do trabalho passo pela agência e peço o Livro de Reclamações. Vão ter a Defesa do Consumidor à perna!
A mulher encolheu os ombros. Até achava que ele ficava mais bonito sem orelhas mas, com ele tão zangado, não se atreveu a dizer nada.